Sobre o julgamento do mensalão, rebato as críticas de Andre Araujo no Blog do Nassif (http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/o-erro-de-entender-o-stf-como-tecnico-e-politicamente-neutro)
Os meus comentários estão em negrito logo abaixo aos comentários (sic) de Andre:
Em
nome de principios ideologicos claros de um partido Joaquim Barbosa foi
indicado à mais Alta Corte do Pais. Tinha credenciais mas não era o unico,
muitos outros tinham. Pela assinatura do Ministro Chefe da Casa Civil
José Dirceu, então o mais poderoso entre todos os Ministros do Governo do PT,
foi encaminhada a indicação ao Senado e o mesmo partido, comandando pelo mesmo
Jose Dirceu, bancou sua indicação fazendo aprovar a indicação na CCJ e no
Plenario.
Na
literatura em Ciência Política, os estudos de Lemos e Llanos já demonstraram
que a coalizão é um importante filtro a ser considerado na escolha dos
ministros. E no primeiro mandato do governo Lula a coalizão era bastante
heterogênea, outro fator que influi no nome de quem será o indicado. Portanto,
não foi o todo-poderoso José Dirceu que colocou Joaquim Barbosa no STF. Foi uma
confluência de fatores capitaneada por ele, evidentemente, por ser o coordenador do governo.
Portanto está perfeitamente claro que houve uma indicação
partidaria. Tanto faz no Brasil, nos Estados Unidos, na Inglaterra ou em
qualquer lugar civilizado existem regras milenares de lealdadade implicitas na
indicação para um alto cargo, seja para a Suprema Corte, para ser Embaixador ,
Ministro, Procurador, delegado ao FMI, comandante de Exercito.
Indicação
partidária só do PT? E a coalizão? A indicação foi política, não partidária.
Regras de lealdade em qualquer lugar? A Suprema Corte britânica só foi criada
em 2009 (antes os Lordes desempenhavam o papel de mais alta corte). Não há
tempo suficiente para se determinar se a Suprema Corte britânica é apêndice do
Parlamento. Muito difícil também que na Alemanha ocorra esse tipo de situação,
pois as indicações passam pelo Chanceler, pelo Senado e pela Câmara onde cada um indica uma parte da Corte. Também é difícil encontrar isso na França, onde além da
indicação ser feita por mais de um órgão, o mandato é por tempo determinado
Não se trata apenas de gratidão, sentimento do campo das
humanidades mas de lealdade, valor do campo da politica, ao qual a Historia dá
um peso extraordinario, comprovado pelos registros que não se apagam, até hoje
2.000 anos passados, a traição de Brutus a Cesar continua viva na memoria dos
povos.
Esperar
que um ex-Procurador da República (hoje Ministro Joaquim Barbosa) se dobre à
vontade de um partido é demais. Retórica ingênua.
A
transgressão desses valores não tem agasalho positivo na Historia. Seculos
depois o Brasil não esquece Calabar e Joaquim Silverio dos Reis, simbolos de
traição na historia brasileira.
Sem argumentos sólidos, mais retórica...
O
traidor não só trai como tem prazer na traição, não trai a contragosto. Não se
diga que nas Demoracias há valores republicanos que neutralizam a lealdade. Não
há essa robotização na politica.
Mas é
isso que o autor do texto passa nos dois primeiros parágrafos. De que os ministros
do STF fossem robôs, obedecendo a quem lá os colocou. Incoerência textual
O Supremo tribunal aqui ou em Washington, modelo que a Republica
literalmente seguiuna Constituição de 1891, é uma Corte politica, não é
técnica, é POLITICA. A Suprema Corte dos EUA é um tribunal politico,
diferentemente dos demais tribunais lá e aqui. Portanto é implicita na nomeação
de seus membros o liame politico, que não se extingue na investidura. Quando
Roosevelt instalou Felix Frankfirter, seu amigo pessoal, na Suprema Corte em
Washington, esperava dele lealdade, que nunca foi negada.
Não sabe de História. O modelo americano foi
copiado na de 1891, mas ao longo do tempo adotou um modelo híbrido,
incorporando o controle concentrado austríaco. Logo, a partir de 1988 o modelo
de Suprema Corte brasileira deixa de ser uma cópia do americano e passa a ser
um modelo híbrido, único. De fato a Suprema Corte americana é um tribunal
político-partidarizado. É importante ressaltar isso. O Supremo Tribunal Federal
nosso é um tribunal político, mas não partidarizado. Em 2009 apresentei um
paper na Universidade de Berkeley sobre controle de constitucionalidade e os americanos ficaram super curiosos por
não haver partidarização no Brasil. Por isso o Senado não fiscaliza direito. Lá
nos EUA como a indicação é partidarizada, o Senado sabatina e muito um candidato
antes de entrar. Há limites, portanto, à lealdade.
É que
o autor do texto não entende o seguinte: Copiar desenhos institucionais em contextos
diferentes não garante produzir os mesmos resultados. Nos Estados Unidos, o
Presidente é fraco diante do Congresso se comparado às prerrogativas do
Presidente brasileiro. Lá há apenas dois partidos, e como o sistema jurídico é
de common law, o Direito pode ser inovado pelos tribunais e a jurisprudência
tem papel muito relevante. Então, em um contexto bipartidário, com uma Suprema
Corte que pode inovar no direito, ou seja, uma política pública implementada
pelos republicanos pode ser totalmente modificada quando os democratas
assumirem a presidência. Logo, como há disputa partidária, nos EUA a Suprema
Corte torna-se outra arena de disputa partidária.
Assim, as indicações são partidárias e a
lealdade é no sentido de um partido não ser penalizado por puro capricho
político de seu adversário. E para evitar que um Presidente nomeie a maior
parte da Corte, os mandatos são vitalícios. Ou seja, durante a presidência republicana,
nenhum Ministro (o termo correto é Justice) irá pedir pra se aposentar. Ou
seja, para formar a maioria na Suprema Corte, de 9 justices, é preciso contar
com a “sorte” de um membro falecer.
Isso
não tem nada a ver com o Brasil. Primeiro que o Presidente da República brasileiro tem prerrogativas muito fortes e controla a
agenda do Legislativo (Limongi, Figueiredo, Cheibub). Segundo que na civil law,
os juízes julgam de acordo com a lei. Não podem, portanto, inovar o Direito. A
Constituição americana é composta de 7 artigos-princípio. A brasileira, 250
artigos-norma, com alguns princípios ora explícitos, ora implícitos. E outro
detalhe importante, com a aposentadoria compulsória, quem assume a Presidencia
sabe quantas vagas irão abrir no STF. E segundo meu banco de dados, como a
média das nomeações é de 56 anos na série histórica (1891-2011), em média um
ministro passa 14 anos no STF (considerando a aposentadoria compulsória), ou
seja 3 mandatos presidenciais e meio.
Portanto é um erro conceitual e historico entender que o Supremo
Tribunal Federal é um tribunal técnico e politicamente neutro. Não é na sua
concepção e na sua função. É um tribunal politico e seus membros julgam
politicamente. Uma Suprema Corte só pode confrontar o Poder eleito em situação
de golpe de Estado, da mesma forma que a independencia de um Banco Central não
pode chegar ao ponto de sua direção confrontar o Presidente da Republica
eleito, aqui ou em Washington.
De fato o STF não é técnico. É político, e em boa medida se busca a neutralidade. De fato, os seus membros julgam politicamente, pois permitir que uma Suprema Corte fosse formada apenas de juízes concursados seria a migração para a “Tecnocracia”. Uma Corte Suprema pode confrontar qualquer poder eleito, desde que esse poder atente contra a Constituição. Essa é a essência de uma Corte Constitucional, obedecer APENAS à Constituição. Koopmans, Hirschl, Whittington entre outros teóricos mostram que a Suprema Corte é um poder contra-majoritário. E isso ganhou força quando presidentes populares cometeram diversos crimes contra a humanidade com apoio do Legislativo. Gadaffi, Saddam, Milosevic, Hitler, a lista é imensa.
Nos EUA, nas duas vezes em que o Presidente do Federal Reserve
quis confrontar o Presidente dos EUA ( casos de Eugene Mayer e Thomas Mc Cabe),
tiveram que renunciar porque é evidente não seria o Presidente dos EUA que iria
ceder.
Comparar uma Suprema Corte com um Banco Central
fez Montesquieu, Jon Jay, James Madison e Alexander Hamilton se revirarem em
seus túmulos. Até Tocqueville está roendo as unhas.
O caso do julgamente do mensalão seguindo um roteiro contra o
partido no Poder é a criação de um conflito politico claro, processo que não
será positivo para os destinos do Brasil.
Positivo para o país seria o PT assumir que errou e pagar a
pena imposta com honra, para assim voltar a ter respeito. Essa estratégia de se
mentir várias vezes até que se torne verdade cola pra boa parte da população, mas
pra outra parcela não e eu me incluo nela.
E para os que acham que a Suprema Corte não pode questionar autoridade:
E para os que acham que a Suprema Corte não pode questionar autoridade:

Nenhum comentário:
Postar um comentário